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Comunicação «Literacia digital no processo de alfabetização de adultos»
 
No Encontro da Semana Aprender ao Longo da Vida 2017, a Dra. Lucília Salgado, da APCEP, apresentou uma comunicação subordinada à temática “Literacia digital no processo de alfabetização de adultos”.
 

Reproduzimos aqui a referida comunicação:

"Literacia digital no processo de alfabetização de adultos"

Impossível pensar hoje a alfabetização de adultos como uma recuperação do tempo perdido, isto é fazer o que se deveria ter feito no início da escolarização! Diria que por quatro grandes ordens de razões:

1) Porque não é evidente que a escola que se tivesse feito nesse tempo fosse a melhor quando sabemos que, ainda hoje, mais de metade das nossas crianças, sobretudo originárias de meios não letrados, que passam pela escola do 1º ciclo se deparam com processos de ensino que lhes não são adequados acabando por acarretar insucessos escolares que muitas vezes se transformam em sérias dificuldades pessoais, em perca dos direitos de cidadania. Do mesmo modo se rejeitam processos de escolarização de adultos quando falamos em alfabetização. Porque não estamos perante uma população com caraterísticas homogéneas e porque as necessidades de aprendizagem hoje são diferentes.

2) Sabemos hoje que as formas de aprender têm caraterísticas diferentes de grupo para grupo. Estamos perante grupos sociais com sistemas onde as culturas se apreendem, se transmitem e se partilham de formas diferentes. Assim, uma primeira abordagem da população que não possui a competência literacia, os que não sabem mesmo ler e escrever, os ditos literalmente analfabetos provêm de grupos sociais e culturais tão dispares como: i) os iletrados que não frequentaram a escola ou a abandonaram cedo engrossando o grupo dos séniores; ii) temos os jovens que saíram da escola sem terem aprendido a ler e que a abandonaram sem a competência de literacia que lhes permitiria uma escolaridade com sucesso;  iii) temos ainda muitos adultos inseridos no mundo do trabalho ou em situação de desemprego que não aprenderam a ler;  iv)  nos grupos de emigrantes ou mesmo refugiados, por vezes provenientes de países que ainda não conseguem oferecer a escola a todos, encontramos muitos. Jovens e adultos que não detêm a competência literacia; v) não podemos ainda esquecer o nosso grupo autóctone dos ciganos no interior do qual se vivencia atualmente um forte interesse pela escolarização incluindo de acesso ao ensino superior, por homens e por mulheres. E todos estes grupos têm direito a respostas diferenciadas.

3) Uma outra razão prende-se com aquilo que se aprende. A leitura e a escrita são meios de comunicação o que, para além dos códigos, exige mensagens. E as mensagens que interessam os vários grupos de destinatários serão forçosamente diferentes. A aquisição e desenvolvimento da literacia, enquanto competência que consiste em extrair o sentido de um texto escrito necessário ao seu quotidiano, passa pela aprendizagem do seu uso em situações funcionais nos quadros dos seus quotidianos. Um adulto sénior, um trabalhador no ativo, um jovem muitas vezes desinserido, têm necessidades diferentes mesmo se pensarmos apenas na relação com o mundo do trabalho.  Incluímos aqui os emigrantes e refugiados porque a compreensão dos nacionais ou de outra cultura exige novas aprendizagens, outras relações com o saber.

4) E as necessidades de aprendizagem transportam, além do mais, novas relações com o saber. Pensar na alfabetização de adultos como “dar-lhes a quarta classe” remete para um tempo em que se considerava que um indivíduo, ao fim de 4 anos de escolaridade não tinha mais nada a aprender, exceto quem quisesse aceder a profissões normalmente só reservadas às elites.  O mundo mudou e a relação com o saber tornou-se mais premente com essa mudança. Hoje a aprendizagem é permanente e por isso se fala de aprendizagem ao longo da vida. Por isso, falar de alfabetização será apenas referir uma fase da aquisição da competência literacia. Falando apenas nesta necessidade ocorre imediatamente a urgência do seu aprofundamento de modo a tornar-se de um uso tão corrente como usamos a fala. A fase de automatização, necessária a todas as aprendizagens, torna-se aqui fundamental. O modo de juntar as letras como se aprendeu na maior parte das escolas terá de se transformar rapidamente na leitura corrente de palavras necessárias ao seu quotidiano. A necessidade do aparecimento do conceito de literacia procurou precisamente ultrapassar essa fase escolar de modo a tornar esta atividade funcional. Assim como a leitura em vários suportes. Felizmente não existem manuais de leitura para adultos desenvolvendo-se a capacidade nos próprios portadores de escrita. Por essa razão, o computador passou a ser um meio de aprendizagem fundamental para qualquer grupo social, de qualquer idade. Por isso se faz alfabetização já no computador. Aprende-se a ler e a escrever, aprende-se a utilizar o computador e aprende-se a usá-lo nas suas várias funções. Houve tempos, em que nos grupos de alfabetização as solidariedades se desenvolviam ensinando a aguçar um lápis na afiadeira (apara-lápis). Tratava-se de uma tarefa muito difícil sobretudo para mãos calejadas. Hoje, talvez seja mais fácil usar o rato no computador ou salvar o texto escrito. São tudo aprendizagens que terão de ser feitas.

Por todas essas razões as práticas de aprendizagem/desenvolvimento da literacia terão de descolar do conceito de alfabetização, mais ainda por se encontrar tão carregado de representações negativas.

Os sistemas mais adequados de educação de adultos reconhecem que, qualquer que seja o nível de literacia de um adulto a sua aprendizagem de deve basear no que ele sabe, no que ele é, no que ele tem. E ser esse o ponto de partida. Por essa razão o sistema de aprendizagem assenta no reconhecimento de competências pareceu ser o mais adequado para adultos trabalhadores, cidadãos. A literacia será uma componente dialeticamente importante nestes contextos de aprendizagem.  Desenvolver-se-á ela própria enquanto permite o desenvolvimento de outros saberes necessários à vida dos adultos.

Permitam-nos referir as aquisições no quadro dos programas de RVCC a nível do Ensino Básico: aprendeu-se a aprender, a gostar de aprender, a adquirir o prazer de saber. Talvez porque as pessoas sentiam mais autoeficácia na vida, mais autonomia. Em relação ao trabalho conseguiam – indo à net! – perceber a empresa onde desenvolviam o seu trabalho, e até perceber o significado dos seus gestos! Aventurar-nos-íamos a dizer que alguma produtividade terá sido desenvolvida a par desta emancipação cidadã. Até os filhos percebiam melhor e até eram capazes de entender os problemas que tinham na escola. E assim conseguiam entrar nos seus mundos: no da escola, no da internet.

 
 
 



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